quinta-feira, 10 de março de 2011

Tecnologias Geoespaciais: um abismo entre o mercado e a formação acadêmica


Há alguns anos comecei a trabalhar numa solução para o que estão chamando atualmente de "apagão de profissionais". Na realidade, considero que desde que entramos neste novo século o mercado de geotecnologias tem sofrido com um "apagão de profissionais". Eu tenho comprovado esta tese com a avaliação de mais de 400 currículos por ano.


Os modelos adotados pelos cursos de formação se concentram normalmente na utilização de softwares, em especial, de proprietários. A alegação principal é que os conceitos são ensinados através dos sistemas especializados que, normalmente, são instalados em um computador pessoal, ou seja, o estudante se forma sem ter a menor idéia do que é um projeto corporativo, não tendo um contato mínimo com um banco de dados espacial (também conhecido como banco de dados geográfico) ou serviços baseados em um servidor mapas.


Alguns acreditam que conhecer o "Geodatabase" do ArcGIS é o mesmo que conhecer um banco de dados espacial. Sinto muito em dizer, mas as possibilidades do PostGIS ou do Oracle Spatial (as duas opções de módulos espaciais mais utilizadas no Brasil) estão a alguns anos-luz do que é ensinado sobre o "Geodatabase" nos cursos de formação.

Tenho observado o número de cursos de Geoprocessamento se multiplicando com a replicação de uma grade de ensino basicamente sem qualquer inovação ou alinhamento às novas demandas corporativas do mercado. Os conhecimentos adquiridos nestes cursos NÃO preparam os profissionais para enfrentarem os maiores desafios do mercado de geotecnologias que, normalmente, estão relacionados aos projetos corporativos envolvendo banco de dados espacial. É fácil observar que não existe diferença clara, em termos de conhecimento, entre os cursos de nível técnico e de especialização/mestrado em Geoprocessamento. Muitos acabam se iludindo acreditando que ao fazerem estes cursos realmente terão uma boa posição no mercado. Talvez até consigam um emprego na área de geotecnologia, mas a obtenção de uma boa posição não é conseguida por um curso sem alinhamento com as novas demandas do mercado. Tem muitos profissionais de nível superior executando tarefas de nível técnico.


Outra grande ilusão do profissional é tentar limitar a sua área de atuação achando que isso trará algum benefício na sua carreira. Já vi muitos profissionais oriundos da área de Geociências acreditarem que não precisam possuir um mínimo de conhecimento prático em banco de dados geográfico ou em servidor de mapas. Entre um profissional teórico e um prático, o mercado tende a optar pelo prático, priorizando aquele com maior experiência em grandes projetos e trabalhos multidisciplinares (onde realmente se identifique um trabalho em equipe). Porém, a formação prática em uma linha de software focada em aplicações desktop também não dará nenhuma diferença significativa na demanda principal do mercado que são os projetos corporativos.

Algumas empresas do mercado de geotecnologias não terão esta percepção sobre a falta de profissionais qualificados, pois o modelo de negócio de cada empresa define qual o perfil prioritário de contratação. Como a maioria das empresas no mercado brasileiro de geotecnologias vendem licenças de software proprietário, existe uma demanda maior para um perfil comercial em detrimento do perfil mais técnico. As empresas que trabalham com enfoque em soluções corporativas possuem maior probabilidade de perceberem esta ausência de profissionais qualificados.


Um outro fenômeno que tenho identificado nos diversos processos de seleção que tenho coordenado é que existem "laboratórios de geoprocessamento" que passam uma experiência negativa para os estudantes. Na maioria dos casos que analisei, os estudantes relatam que a condução de projetos nestes "laboratórios" não possui uma forma de gestão bem definida. As boas práticas do PMI passam longe desses laboratórios que as vezes se desviam de sua função original e até tentam desenvolver projetos corporativos dentro de alguma instituição pública. Não preciso nem falar que os resultados normalmente são desastrosos. E o pior de tudo é que passa para os estudantes uma idéia totalmente errada de como deve ser um projeto corporativo e colaborativo. Uma situação particularmente sem sentido ocorre nas universidades públicas que desenvolvem soluções para instituições públicas, utilizando dinheiro público, mas fornecendo uma solução proprietária. Isto demonstra que existem interesses particulares se sobrepondo ao interesse da sociedade.


Outro fato que pode comprovar a tese da falta de profissionais qualificados é a quantidade de "projetos de geoprocessamento" que fracassam e são descontinuados num curto espaço de tempo. Com raras exceções, nas instituições públicas para as quais desenvolvi projetos eu sempre fui informado de um histórico anterior de projetos fracassados. Talvez isso explique porque um dos vídeos de maior sucesso sobre o tema "geoprocessamento" seja o "Geofracassado". Piadas a parte, o fato é que o histórico de fracassos está presente também em instituições privadas que investiram milhões achando que as tecnologias geoespaciais iriam revolucionar o seu negócio e não foi bem isso que ocorreu. Em alguns casos, algumas empresas aumentaram os seus custos operacionais contratando uma equipe de "especialistas em geoprocessamento" sem conseguir implantar nem mesmo um banco de dados geográfico departamental.

O mercado de geotecnologias oferece muitas oportunidades de emprego com carreiras e vantagens para os bons profissionais. A preparação para este mercado exige uma boa dose de dedicação individual para complementar a carência da formação acadêmica. A Internet democratizou o acesso à informação e os profissionais que desejarem realmente se destacar neste mercado precisam apenas de uma boa conexão e algumas horas de dedicação, preferencialmente, diária. Para os que estão iniciando a carreira, uma boa oportunidade é procurar programas de estágio ou trainee que apresentem um alinhamento com as tendências do mercado. É bom ter cuidado ao escolher o programar e verificar se o mesmo realmente está de acordo com as suas expectativas, pois muitas empresas não oferecem uma real oportunidade de aprendizado.

6 comentários:

Murilo Raphael - Amor e respeito sempre! disse...

Muito bom artigo. Eu faço Geografia na UFG e lá nosso geoprocessamento é exatamente superficial como você expressa. O que tenho feito é procurar amigos estudantes de outro curso pra me auxiliar no estudo de programação e banco de dados. Outra dica é, pra quem pode, pagar um curso de banco de dados e programação (recomendo o SENAC, bom preço e bons profissionais).

Rafael disse...

olá, meu nome é rafael e faço geografia na UFJF.
otimo post!!
helton, você cita esses dois softwares PostGIS, Oracle Spatial. infelizmente nunca ouvi falar.
eles são free?? consigo baixar via net?? se puder me passar agradeço. estou focando a um ano em geoprocessamento, quero seguir nessa área.

abraço

Engenheiro Helton Uchoa disse...

Caro Rafael, seguem algumas orientações:

- Oracle é proprietário, mas tem uma versão free mais simples. Veja o link: http://www.oracle.com/technetwork/database/enterprise-edition/downloads/index.html e baixe a versão Oracle Database 10g Express Edition

- O PostGIS é livre é pode ser baixado no link: http://postgis.org/

Luis Fernando Chimelo Ruiz disse...

Olá!Helton
Muito bom seu post, muitos professores de geo deveriam abrir seus olhos e perceberem a verdadeira demanda que o mercado de geo necessita, especialmente cursos totalmente direcionados para geoprocessamento.
Como os que eu fiz, sou formado em técnico em geomática na UFSM e estou cursando o tecnólogo em geoprocessamento na mesma instiuição, o que vejo por aqui é essa mesma realidade, nos ensinam VB a partir de bibliotecas pagas. E assim nos iludimos que isso é geo. Mas sugiro para quem queira apreender a desenvolver para área de geo a linguagem Python, pois existem várias bibliotecas livres para geo como GDAL, Shapely, Mapnik, PPyGIS (PostGIS), mapscript (WEBGIS).Bom, desculpa o desabafo e aproveitando gostaria de saber se vc utiliza a linguagem Python nos seus projetos.

att

Helton Uchoa disse...

Olá Luiz Fernando. Nos últimos anos, os projetos que tenho trabalhado estão sendo desenvolvidos em PHP. A maturidade dos componentes livres de GEO para esta linguagem tem sido um ponto importante para esta opção. Há alguns anos atrás, coordenei o projeto Open 3D GIS que foi desenvolvido em Python.

Vítor Alves Souza disse...

Interessante Helton Entendo e concordo quando fala sobre as deficiências dos métodos de ensino e falta de capacitação, porém hemos de considerar que geoprocessamento não perpassa unicamente sobre a programação e áreas afins, mas também nas formas de utilização deste. Por fim creio que é justamente por isso que o geoprocessamento é interdisciplinar, para que cada área do conhecimento utilize-o de acordo com suas atribuições e de formas distintas.