sexta-feira, 8 de abril de 2011

Manifesto de um profissional de TIG (Tecnologia da Informação Geográfica)

Para um profissional que é formado em Física Clássica, a tentativa de usar os conceitos que ele aprendeu para explicar fenômenos no mundo quântico resultaria em interpretações limitadas e, algumas vezes, muito longe da verdadeira realidade. Fazendo um paralelo deste exemplo com o mercado de geotecnologias, um fenômeno similar está ocorrendo com frequência no Brasil onde profissionais limitados ao conceito de geoprocessamento não são capazes modelar projetos corporativos envolvendo recursos mais recentes relacionados a tecnologias geoespaciais. Esta situação tem gerado inúmeros projetos extremamente limitados e que não garantem retorno do investimento. Neste contexto, começamos a distinguir dois grupos de profissionais atuando no mercado: "geoprocessadores" e profissionais de TIG (Tecnologia da Informação Geográfica). Muitas vezes, estes dois grupos são confundidos, mas existe uma grande diferença no quesito conhecimento e no tipo de abordagem no tratamento dado às tecnologias geoespaciais.

Visando evitar que alguns amigos continuem achando erroneamento que eu um geoprocessador, vou fazer uma lista com as principais diferenças para não haver dúvidas:
  • Um geoprocessador inicia um projeto na sua instituição comparando os recursos mais recentes dos principais sistemas do mercado, visando escolher o "melhor software". Um profissional de TIG analisa inicialmente quais os setores podem ser beneficiados e estabelece métricas para avaliar o impacto das possíveis soluções, sempre observando o benefício para os usuários finais (não especialistas).
  • O geoprocessador entende o "geodatabase" do ArcGIS como um banco de dados espacial e indica isso como uma possível "solução corporativa" para instituição. O profissional de TIG sabe que os SGBDs que possuem módulos espaciais (geográficos) consagrados no meio corporativo do mercado brasileiro são o PostgreSQL e o Oracle. Alguns geoprocessadores, às vezes, tentam se passar por profissionais de TIG fazendo afirmações do tipo: "Essa solução só dá para ser feita com Oracle Spatial". Isso só confirma a situação de geoprocessador, pois onde o Oracle Spatial atende, o PostGIS também atende.
  • Enquanto o geoprocessador pensa em como fazer mapas temáticos mais bonitos com os novos recursos dos desktops GIS para valorizar o seu trabalho, o profissional de TIG busca uma forma de utilizar os recursos do banco de dados espacial para gerar automaticamente os relatórios temáticos (mapas) exigidos nos processos de negócio da instituição visando potencializar o trabalho dos diversos integrantes da instituição, principalmente o do alto gestor (normalmente um leigo em relação às tecnologias geoespaciais).
  • No processo de seleção de profissionais para desenvolvimento de projetos, o geoprocessador se concentra em títulos e em experiências acadêmicas, enquanto o profissional de TIG avalia intensamente as experiências em projetos que realmente deram resultados significativos para melhoria da gestão, preferencialmente com inovação.
  • Um projeto integrado, na visão do geoprocessador, é composto essencialmente pela importação e exportação automatizada de dados do sistema de gestão da instituição com o SIG (Sistema de Informação Geográfica). Para o profissional de TIG, integração é trabalhar com a inteligência geográfica dentro do próprio sistema de gestão sem necessidade de um "módulo de geoprocessamento".
  • Quando, numa instituição, o assunto da INDE (decreto Nº 6.666, 27 de Novembro de 2008) é colocado em discussão, o geoprocessador logo indica a instalação do geonetwork (ou algum software similar) para atender ao perfil "brasileiro" de metadados. O profissional de TIG avalia inicialmente como o perfil de metadados pode melhorar os processos de negócio internos. Depois ele busca uma estratégia para integração dos metadados no contexto dos processos, dando preferência ao tratamento destes metadados dentro dos próprios sistemas corporativos, evitando a implantação de sistemas adicionais.
Com os exemplos citados acima, espero deixar claro a mudança de paradigma que está ocorrendo no mercado de geotecnologias. Eu deverei fazer outras publicações sobre o assunto e também compartilhar experiêcias práticas em relação a TIG. Em algumas consultorias que tenho coordenado no âmbito dos projetos da OpenGEO, tenho buscado internalizar os novos conceitos de forma gradativa junto aos clientes. O caminho trilhado nem sempre é tranquilo (afinal Murphy é onipresente), mas os resultados finais sempre superam as expectativas até dos mais céticos.